Lá do sul do país apareceu uma nova imagem para pensar a psicologia arquetípica e seu nome é Pedro Paiva. Aqui, o jovem psicólogo e pensador que mora e trabalha em Porto Alegre, arrisca-se na saborosa e convidativa aventura imaginativa de reunir o pensamento de James Hillman com a poética de Manoel de Barros. Acertou em cheio! Com delicadeza, invenção e rigor teórico, Pedro vai tecendo sua rede de palavras para nos mostrar que a proposta de trabalho com os sonhos como apresentada por Hillman encontra na poesia de Manoel de Barros um espaço de infinita repercussão. Entre o analista americano e o poeta pantaneiro, surge o texto de Pedro Paiva, agindo como psicopompo "gaúcho" na tessitura de territórios tão semelhantes na sua matéria prima. O resultado é poesia imaginativa onírica. Seja bem vindo, Pedro.
Marcus Quintaes
Pedro Rosa Paiva -
Índice
Introdução ou Entrada....................................................................................................4
Psicologia arquetípica...............................................................................................5
Fenomenologia mitopoética......................................................................................7
1. Análise da imagem ou “Atenha-se a imagem!”.........................................................7
Metáfora....................................................................................................................8
Sonho.........................................................................................................................9
1.1. Sensualidade ou Imaginação Corporificada........................................................10
1.2. Emoção e Estampação............................................................................................10
1.3. Simultaneidade........................................................................................................11
1.4. Intra-relações e Completude..................................................................................12
1.5. Valor........................................................................................................................13
2. Operações e Ferramentas.........................................................................................14
Narrativa.................................................................................................................14
O Submundo das Imagens e a Maneira de
Entrar..................................................15
Fazer Imagens.........................................................................................................16
2.1. Reafirmação............................................................................................................16
2.2. Analogizar...............................................................................................................17
Amplificação.............................................................................................................19
Elaboração e Associações.........................................................................................19
2.3. Contrastar...............................................................................................................20
2.4. Gramática ou Despalavra......................................................................................20
2.5. Nomes.......................................................................................................................22
2.6. Eternalizar ou
Monumentar..................................................................................22
2.7. Singularizar ou
Infimizar......................................................................................23
2.8. O Hiato na Imagem................................................................................................24
Palavras Finais ou Epígrafe..........................................................................................25
Referências Bibliográficas............................................................................................26
“O olho vê
A lembrança revê
E a imaginação transvê
É preciso transver o mundo”
Manoel de Barros
(BARROS, 2010/1, p. 350)
Introdução ou Entrada
Este artigo propõe uma abordagem
específica no trabalho psicológico com os sonhos. Apesar da extensa literatura
sobre o tema, pouco se disse sobre o trabalho não interpretativo, não calcado
em conceitos psicológicos a priori, como realização de desejos e compensações.
Visando ampliar o tema, usaremos não apenas a bibliografia psicológica, mas
também recorreremos as artes e a literatura.
Não importa o que façamos com o sonho,
a premissa básica de nossa operação, nosso ponto de partida, é que o sonho,
antes de qualquer conclusão, é uma imagem.
Assim sendo, este método visa oferecer
ferramentas para melhor ouvi-la e assim resgatar o fenômeno, deixar-la falar. Isso
implica em uma fenomenologia da imagem que só pode ser respondida com “um
trabalho de imaginação como acontecem em pintores e escritores.” (HILLMAN,
1979a, p. 118)
Não iremos, portanto, explicar o que é
o sonho, nem de onde ele vem, ou ainda, a importância de se trabalhar os sonhos
ou não. Não estamos, assim, rebaixando outros métodos interpretativos, mas sim,
apresentando um método imagístico. Queremos transver o sonho.
Através de uma exposição teórica, com
base na obra de James Hillman, de uma operação prática através de um sonho
exemplo, e através de pinceladas da poesia de Manoel de Barros, visamos
construir uma maneira singular de responder aos sonhos.
O artigo é dividido em duas partes: na
primeira, “Análise da imagem ou Atenha-se a imagem!”, expomos algumas
características essenciais da imagem, e a segunda parte, “Ferramentas e
operações”, apresentam um método de trabalho com as imagens. O texto todo funciona
em três níveis didáticos, cada qual com grafia distinta:
- 1. teórico, escrito em letras
comuns;
- 2. exemplo prático e operacional da teoria, onde um sonho como exemplo
é trabalhado, escrito com letras itálicas;
- 3. comentário poético de Manoel
de Barros, escrito em letras itálicas e em negrito.
Essas três dimensões do artigo se
entrelaçam e criam uma visão múltipla do tema, permitindo assim, que vejamos as
idéias, a operação imaginativa e a base poética da alma agindo simultaneamente
em diferentes camadas da imaginação.
A importância e ênfase do trabalho
analítico, passa a ser o de imaginar ativamente o sonho através de jogos de
palavras, observar o comportamento das imagens, o relacionamento delas, sua
ecologia e como as coisas estão conectadas. Podemos ainda ver como elas
interconectam-se, por analogias e ricas metáforas, nos campos de nossas vidas.
O olho é treinado para ler a imagem e o ouvido para ouvi-la através de uma
visão polimórfica das diversas consciências do sonho, uma multiplicidade de
imagens e palavras polissêmicas.
Trabalha-se no sonho,
respondendo ao trabalho do sonho que uniu imagens, restos da vida diurna, e
moldou toda uma nova realidade. Por isso, a ênfase do trabalho é em “dar forma,
tatear e fazer algo com o material psíquico” (HILLMAN, 1979a, p.138) e
“apresentar uma atitude que mantém o sonho trabalhando na alma” (HILLMAN, 1979a,
p. 200)
Só as dúvidas santificam
O chão tem altares e lagartos
Remexa o Sr. Mesmo com um pedacinho de
arame os seus distroços
Aparecem bogalhos
Quem anda no trilho é trem de ferro
Sou água que corre entre pedras:
- liberdade caça jeito
Procuro com meus rios os passarinhos
Eu falo desemendado
(BARROS, 2010/1, p. 156)
Psicologia Arquetípica
C.G. Jung não viajava no trilho,
fluía entre pedras, dando espaço central para a imaginação e a fantasia
criativa dentro de sua psicologia. Segundo Jung “é psicologia no sentido mais
amplo da palavra, uma atividade psicológica de natureza criadora, na qual a
fantasia detém o primado”, “sabemos que toda boa idéia e toda obra criadora
surgiram na imaginação e tiveram seu começo naquilo que costumamos chamar
fantasia infantil”. (JUNG, 2011a, p.77). Porém, foi Hillman quem levou tal
idéia ao extremo na sua revisão de Jung e de Freud.
A Psicologia Arquetípica não é
uma psicologia dos arquétipos, sua atividade primária não é combinar temas da
mitologia e da arte a temas semelhantes na vida. Ao invés disso, a idéia é ver
todo fragmento da vida e todo o sonho como mito e poesia. É uma psicologia que
não se baseia na ciência, mas sim na penetrante visão da imaginação para
perceber “esses archai, aquelas
fantasias fundamentais que animam toda a vida. Arquetípico significa fundamentalmente
imaginal”. (HILLMAN & MOORE, 1989, p.15-16).
Arquetípico “agora é o
resultado de uma operação, não dada com a imagem, mas com o que acontece com a
imagem – uma função de fazer ao invés de uma função de ser”. (HILLMAN, 1977, p.
75)
Essa operação é o que descreveremos neste trabalho, através de algumas
técnicas que possam propiciar que esta qualidade arquetípica possa emergir.
Esse é o trabalho de fazer imagens, o trabalho de uma psicologia que não tem
como centro a neurociência, o estudo do cérebro, a cognição e os padrões
comportamentais, mas sim uma psicologia da imaginação, uma psicologia que
trabalha a base poética de mente, como Hillman a chamou (HILLMAN, 2010, p.29)
Se como Freud disse: “mesmo que os
sonhos não tenham vindo de outro mundo, de qualquer forma, transportam-no para
outro mundo” (FREUD, 1972, p.7), o mundo da poesis,
o fazer imagens através de palavras, através de condensações e deslocamentos,
truques poéticos da alma.
“o homem não se transfigura senão pelas palavras”.
(BARROS, 2010/1, p. 465)
“O que resta de grandezas para
nós são os desconheceres – completou.
Para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber nada.
É preciso entrar em estado de
árvore.
É preciso entrar em estado de
palavra.
Só quem está em estado de palavra
pode enxergar as coisas sem feitio.”
(BARROS, 2010/1, p. 363)
Fenomenologia Mitopoética
Este método sugere que nos atenhamos no
fenômeno apresentado no sonho, na coisa sem feitio, na imagem e nos sons,
palavras.
“Quando nos
voltamos para os próprios eventos e nos perguntamos o que eles são, nosso
trabalho é fenomenológico. E nosso trabalho é fenomenológico quando procuramos
pela essência do que está ocorrendo em termos de uma idéia essencial ou de um
estilo de consciência, colocando de lado todos os por que(s) e como(s).”
(HILLMAN, 2010, p. 273)
Há nisso o perigo de tornarmo-nos
literais na nossa apresentação e extremamente fenomenológicos. Por isso é
necessária uma visão fenomenológica unida a uma perspectiva poética, mítica,
artística. “A fenomenologia precisa do senso de estruturas míticas como pano de
fundo e seus valores profundos” ao tempo que a psicologia arquetípica precisa
“do não literal, às vezes humorístico, senso de metáfora no pano de frente”.
(HILLMAN, 1977, p. 85)
“Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.”
(BARROS, 2010/1, p. 379)
- Análise da
imagem ou “Atenha-se a imagem!”
Por imagem, não referimo-nos ao
“retrato psíquico do objeto exterior, mas uma representação imediata, oriunda
da linguagem poética, ou seja, a imagem da fantasia que se relaciona
indiretamente com a percepção do objeto externo” (JUNG, 2011a, p. 457).
“Imagens psíquicas não são
necessariamente fotos e podem não ser como imagens sensíveis. Ao invés disso,
elas são imagens como metáforas. Uma imagem na poesia e o todo o processo
imaginativo na música, é claro, deve ser escutado com o ouvido, mas eles são
escutados com um terceiro ouvido ou ouvido interno” (HILLMAN, 1979a, p. 54).
Indiferente das imagens que iremos
trabalhar, simbólicas, universais, pessoais, com ressonância em nossa história
de vida, a abordagem imagística tem como primeira regra “como” a imagem
aparece, sua particularidade e peculiaridade. O símbolo, por exemplo, pode nos
levar a abstrair do contexto e nos levar a discutir os universais da
imaginação, perdendo assim o “como” ele aparece. Então mesmo os símbolos,
voltam a ser imagens se nos voltarmos a sua precisão de contexto, humor e cena.
Partimos do princípio que o sonho
apresenta-se por completo e que tudo e todos, no sonho, são necessários, ele
“pode ser elaborado e aprofundado por trabalharmos nele, mas para começarmos,
está tudo lá; integralidade exatamente na imagem” (HILLMAN, 1977, p. 68).
Por isso, temos que olhar as palavras
do sonho com muito cuidado, pois não temos outro lugar para olhar e achar seus
significados, e sim o como as ouvimos e as olhamos. “Uma imagem percebida como
uma foto tem a tendência de tornar-se óptica, intelectual e distanciada. Ela
lá, nós aqui. Mas imaginada como uma cena, eu posso entrar nela, e quando
imaginada como um humor, ela entra em mim” (HILLMAN, 1978, p. 159).
Este trabalho com o sonho leva mais em
conta o trabalho de essência, de caráter, como a alma os imagina e os
personifica. “Quando olhamos para cada sonho como uma foto de nós mesmos, ele
será menos uma mensagem que ajuda a programar nossas vidas, e mais um
auto-retrato nas molduras das quais nos situamos, em suas silenciosas testemunhas,
refletindo mais e mais sobre nossa natureza” (HILLMAN, 1978, p. 163).
“Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas...
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com as suas metáforas...
Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por
afeto.”
(BARROS, 2010/1, p. 383)
Metáfora
Freud via o sonho como uma alegoria, ou
seja, o sonho tinha um significado manifesto e um latente, ele requer uma
tradução do manifesto em latente. Já Jung,
sugeria uma leitura metafórica, mantendo as duas vozes juntas, ouvindo o que o
sonho diz e o que ele mascara ao mesmo tempo, uma leitura em si metafórica.
Jung usa como exemplo de narração
imaginativa as fábulas de Esopo (JUNG, 2011b, p.188), pois assim como os
sonhos, apresentam uma situação, vezes fantasmagóricas, que trazem consigo uma
narrativa objetiva das aventuras do burro e da raposa, mas podem ser ouvidas
como metáforas, com um sentido oculto que não reside fora da imagem, mas que
soa simultaneamente a narração..
Uma metáfora “responde as nossas
exigências de perplexidade intelectual e de explicação através de enigma, ao
fornecer ficções “como-se” em profundidade, complexidade e diferenciações
requintadas” (HILLMAN, 2010, p.298).
Uma boa metáfora implica uma percepção
intuitiva de semelhanças em não semelhantes.
Metáfora é um recurso estilístico que
consiste na transposição do sentido objetivo de uma palavra a um outro
figurado, através de uma comparação implícita (HOUAISS, 2009, p.501).
“A seca foi braba naquele ano.
O pai falou: Lá evém uma língua de fogo do lado da Bolívia e vai lamber
todo o pasto.
O menino assustou: Língua de
fogo?
O pai explicou ao menino que se
tratava de imagem.
Língua de fogo é apenas uma
imagem.
Mas, pela dúvida, o menino
retirou seu cachorro da imagem.”
(BARROS, 2010/1, p. 443)
Nossa operação consiste em ver através
das imagens e ouvir através das metáforas. Para isso, analisaremos algumas características
essências da imagem através de pequenas elaborações teóricas, seguidas de um
exemplo prático com um sonho modelo.
Segue-se o
sonho que irá nos acompanhar por todo este processo como um exemplo prático:
SONHO
“Eu estou deitada
numa cama, o quarto está escuro. Um velho com o rosto deformado aparece na
janela. Nesse momento, eu levanto e acendo a luz, o velho entra pela janela,
ele traz uma lança enferrujada na mão e aponta em minha direção. Eu tento
gritar desesperadamente, mas estou paralisada.”
1.1. Sensualidade ou Imaginação Corporificada
A imagem tem corpo, dimensão, cor, som,
sabor. Quando estamos no sonho, estamos em um lugar, onde aquelas pessoas,
objetos, animais, parecem conviver em um ecossistema específico. Toda
disposição fantástica de um sonho, aberrações e cenas impossíveis, tornam-se
possíveis naquele ecossistema, naqueles corpos. Segundo Berry (BERRY, 1982,
p.60), uma das razões pelas quais as imagens fundem-se com pós-imagens (imagens
recolhidas pelos sentidos durante o dia) é justamente o fato de as imagens do
sonho também serem perceptíveis pelos sentidos, possuírem um corpo metafórico,
um corpo psíquico.
Ex: Vemos no sonho
que a idéia de corpo psíquico é bastante clara. A sonhadora tem uma experiência
corpórea de estar deitada na cada, de estar num ambiente fechado, um quarto, o
velho aparece fora e depois entra, ele também possuí um corpo, capaz de
transitar no espaço psíquico do sonho.
“Poesia não é para compreender mas para
incorporar”
(BARROS, 2010/1, p. 178)
1.2. Emoção e Estampação
As imagens do sonho constelam um humor
específico. São emoções, ou tem a qualidade de emoção, de emocionar, de
incorporar. Berry afirma que “não podemos entreter nenhuma imagem nos sonhos,
na poesia, na pintura, sem experimentarmos uma qualidade emocional apresentada
pela própria imagem”. (BERRY, 2007, p. 58)
O sonho também estampa alguns
sentimentos, alguns estados de alma, dando corpo e imagem a algo abstrato
quando não ligado a uma imagem.
Ex: Estar
desesperado é uma afirmação abstrata. No sonho, podemos ligar a emoção a uma
imagem específica. Aprendemos que estou desesperado por tentar gritar, enquanto
um velho com uma lança enferrujada na mão aponta em minha direção. Essa emoção
ganhou uma estampa, posso senti-la, ela tem corpo agora, meu desespero vem do
grito que não sai, quando o velho entra, quando acendo a luz.
“Meu avô namorava a solidão.
Ele era um florilégio de
abandono.
De tudo que me restou sobre aquele avô foi esta imagem: ele deitado na
rede com a sua namorada, mas se a gente o retirasse da rede por alguma
necessidade, a solidão ficava destampada.
Oh, a solidão destampada!
Essa imagem da solidão que ficara
dentro de mim por anos.”
(BARROS, 2010/1, p. 454)
1.3. Simultaneidade
Em uma imagem, todas as partes são
apresentadas simultaneamente. Podemos imaginar o sonho, assim como uma pintura,
“como uma série de justaposições, cada evento adicionando textura e engrossando
o resto” (BERRY, 2007, p. 59). Coisas acontecem enquanto outras coisas
acontecem. Não é necessária uma visão causal e retilínea dos fatos.
Todas as imagens do sonho são
aderentes, coerentes, inerentes. Segundo Hillman, essa inerência é fundamental
a uma imagem. (HILLMAN, 1977, p. 69)
Sugere-se o uso dos termos “enquanto”
ou “quando” para melhor captarmos a idéia de simultaneidade. “Enquanto” tal
coisa acontece, outra coisa acontece.
Excluímos, desta maneira, a causalidade
na imagem. Uma coisa não acontece depois da outra, ou por causa da outra, e sim
acessamos a situação total da imagem, “nos damos conta que todos os eventos
afetam e simultaneamente constelam uns aos outros”. (BERRY, 1982, p. 73)
Ex: Enquanto eu
deito num quarto escuro, um velho deformado aparece na janela. Quando eu acendo
a luz, ele entra com uma lança enferrujada na mão, enquanto eu tento gritar, eu
paraliso.
Já que cessamos a
causalidade, podemos ler a imagem ainda fora desta ordem onde uma imagem
constela a outra. Enquanto um velho entra com uma lança na mão, eu deito num
quarto escuro. Estas coisas acontecem simultaneamente, caso olhemos para o
sonho como uma imagem. Não olharemos por compensação ou pólos opostos nos
sonhos. Ver o velho deformado fora é necessário para ver o velho com uma lança
dentro, são tensões inerentes a imagem que acontecem ao mesmo tempo.
“Eu não amava que botassem data
na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior
era o quando. O quando mandava em nós. Agente era
o que quisesse ser só usando esse advérbio.” (BARROS, 2010/2, p. 133)
1.4. Intra-relações e Completude
Todas as partes do sonho, pessoas,
ruas, cenários, fazem parte da mesma imagem. Uma coisa não é mais importante do
que a outra, pelo menos enquanto parte da imagem. De um jeito ou de outro,
todas as partes da imagem estão conectadas, seja pelo texto, pelo humor, pela
emoção, nenhuma das partes deve per separadas ou analisadas aparte. Isso requer
um nível de desapego a suposições do que o sonho quer dizer, só assim é
possível manter a imagem inteira, dar voz a personagens secundários (pelo menos
do ponto de vista do Eu).
“Quando um sonho é escrito como uma
historia, o final vem depois do começo e é o seu resultado. Mas quando tomamos
o mesmo sonho como uma imagem, então a última frase pode ser ouvida em termos
da primeira (ou qualquer outra) e pode resultar na primeira (ou qualquer
outra). A conexão entre as partes de uma vida, incluindo o seu final na morte,
podem também ser vistas como as imagens intra-relacionadas de uma imagem maior,
e não apenas como uma historia através do tempo” (HILLMAN, 1978, p. 160). Está
citação de Hillman nos aponta para um tipo de limite, onde vivemos dentro de um
enquadramento onde tudo acontece, onde eu existo dentro dos limites da imagem,
limitado pelo seu enquadramento.
Mesmo que a imagem pareça insuficiente,
com falhas de narrativa, desconexa, ainda assim, lhe recebemos como completa em
si mesmo, mesmo a falta de detalhes, afinal de contas, este é o seu detalhe
especial, sua falta para o ego consciente, sua incompletude.
Ex: Podemos observar uma espécie de
constelação, velho deformado está relacionado com quarto escuro, com gritar
desesperadamente, com janela, com acender a luz. Se não temos um velho fora,
não temos um quarto escuro dentro, se não temos uma tentativa de gritar
desesperadamente, não temos as luzes acessas. Uma coisa depende da outra,
constela a outra, estamos limitados pela imagem, porém, este limite nos dá uma
visão completa, não precisamos sair dela, tudo está ali, todos dependem de
todos para existir na imagem.
“Esta tarefa de cessar é que puxa
minhas frases para antes de mim.”
(BARROS, 2010/1, p. 347)
1.5. Valor
Algumas imagens parecem mais
importantes do que outras, mais pessoais, pessoas que fazem parte da minha
vida, minhas coisas. Ou ainda, algumas imagens parecem mais estranhas,
inéditas, não naturais, o que os alquimistas chamavam de opus contra naturam,
chamando nossa atenção para tais figuras deslocadas da realidade. Essas imagens
geralmente são o foco do trabalho analítico, porém, Berry também chama a
atenção para as imagens comuns, pois estas podem estar carregadas de
sentimentos: “o sonho descobre a imagem do sentimento, expondo o sentimento
naquilo que ele é, de forma que podemos ler o sentimento através da imagem,
assim como a imagem através do sentimento”. (BERRY, 2007, p. 61)
Quanto aos aspectos negativos e
positivos da imagem, além do que nos diz a imagem, faremos um mero julgamento
moral através de uma consciência externa ao ecossistema do sonho. “No nível da
imagem a avaliação não é aplicável, pois a imagem simplesmente é”. (BERRY, 1982,
p.74)
Ex: Podemos ter a tendência de trabalhar o
sonho no aspecto que mais chama a atenção do sonhador, por exemplo, o velho e o
medo dessa entrada. Mas se levamos em conta, que na imagem, todas as partes
possuem o mesmo valor, podemos ler o sonho a partir da lança. Tiramos o
sonhador do centro, a lança enferrujada entra no quarto pela mão do velho
deformado, ela aponta para o sonhador, o sonhador se defende dela. Se deslocarmos
a consciência e o valor para outras partes do sonho, descobrimos também as
defesas do sonhador, ele defende-se da lança enferrujada, a imagem aponta para
coisas específicas, não só do sonhador, os objetos tem intenção no sonho, a
lança quer ir em direção da sonhadora, quer enferrujar-la, quer sair da
escuridão do lado de fora, quer penetrar na luz do quarto escuro.
“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul”
(BARROS, 2010/1, p. 302)
- Operações e
Ferramentas
“Povo,
quando fala, fantaseia” (ROSA, 1983)
Para que um efeito transformativo venha
do trabalho com os sonhos, precisamos libertar as imagens e palavras do sonho
de sua rigidez narrativa e gramatical. Precisamos permitir que as imagens e as palavras,
tomem forma de maneira imaginativa, sejam re-imaginadas, “como alguém faz com
qualquer outra obra poética”. (HILLMAN, 1978, p. 175)
Narrativa
Além de todas as características da
imagem, conforme trabalhadas acima, passamos agora a maneira como o sonho é
contado, sua narrativa, sua temática e estrutura dramática, e como ela é
apresentada.
Aqui podemos farejar se o sonho como
imagem é inconsistente ou se a narrativa é inconsistente. As palavras podem dar
dimensão, aprofundar a imagem, ou, podem limitá-la através da prisão da
narrativa. A narrativa estrutura o sonho em uma sequência e ordem das coisas,
dá uma “direção irreversível e forma o sonho num padrão específico” (BERRY,
2007, p. 64).
“Na leitura narrativa, os sentidos
emergem no final, enquanto numa leitura imagística os sentidos estão ativos
durante o processo” (HILLMAN, 1979b, p. 178). Quanto mais sentimos as imagens,
mais elas tomam sentido e mais nos afetam sensitivamente.
“Na prática analítica não é o sonho
como sonhado que é trabalhado, mas ao invés, o texto do sonho. Não são os
complexos como eles são que são colocados no centro da análise, mas a sua
linguagem. Uma abordagem imagística tenta livrar o sentido do sonho do próprio
texto do sonho, reduzindo a influência das pré-suposições interpretativas do
analista que limitam as possibilidades de significados da imagem. Ao invés das
pré-suposições do analista, ou o superego lingüístico do paciente (o gramático
interno) ditando a singularidade de significado, as palavras do sonhador são
permitidas a falar por si mesmas através de sua polissemia inerente” (KUGLER,
2002, p.99).
A maneira como narramos, ou mesmo, a
maneira como trabalhamos o sonho e sua re-imaginação, nós pega por nossos
complexos. Por isso, dizemos que esse é um trabalho mais artístico do que
científico, pois inevitavelmente, a direção para qual iremos recontar o sonho,
terá por traz o trabalho dos complexos, esquemas, gnomos, enfim, a “pequena
gente” da alma.
“Só o obscuro nos cintila.”
(BARROS, 2010/1, p. 330)
O Submundo das Imagens e a Maneira de Entrar
No livro “The Dream and the Underworld” (O sonho e o mundo das trevas),
Hillman faz um trabalho de epistrophe,
uma reversão, através de semelhanças, do fenômeno ao seu pano de fundo imaginal,
onde situa o sonho no seu lugar mítico do submundo, o Hades, o mundo dos mortos
dos Gregos. É claro que não devemos levar tal suposição de maneira literal,
estamos falando de um lugar que morre para a vida desperta, um lugar invisível,
um lugar de almas (imagens) e formas, porém, um lugar sem vida (sem consciência
diurna), um lugar psíquico.
Essa perspectiva mítica nos sugere uma
atitude ao trabalhar com os sonhos:
“Entrar no submundo é como entrar
no modo de reflexão, espelhando, o que sugere que nós devemos entrar no
submundo por meio de reflexão, por meio reflexivo: parando, ponderando, mudança
de ritmo, voz, ou olhar, descendo níveis” (HILLMAN, 1979a, p. 52).
As imagens do “submundo” acabam agindo
como guia, seja para horrores ou alegrias. Por isso é recomendado respeito ao
entrarmos nesta zona psíquica, a casa dos mortos. Entramos sem a defesa de que
as imagens do sonho são “partes” minhas, mantemos a estranhes do “outro”, estamos
entrando em outro mundo, assim como numa viagem, entramos como estrangeiros,
vamos conhecendo a população local, eles, outros.
“Nosso sentido de imagem como um
parceiro, ao invés de uma parte, opera dentro do enquadramento de
relacionamentos. Ver a imagem como parte de si é essencialmente uma expressão
de desejo por relacionamento intimo, mas ser uma parte rouba a sua
autonomia...uma ênfase em estabelecer relacionamentos com as imagens psíquicas
nos encoraja a entretê-las e a podermos conhecer-las melhor” (MCNIFF, 1992,
p.129).
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum convém se vestir
de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro nos
primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta
Uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o
poema enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
(BARROS, 2010/1, p. 174)
Fazer Imagens
Nosso discurso comum pode nos impedir
de ouvirmos o que a imagem está dizendo. Os mortos falam suspirando, é preciso
chegar perto com o ouvido para ouvi-los.
Precisamos de um discurso rico, pois,
“um determinante principal do volume de uma imagem reside nas múltiplas
implicações de suas palavras” (HILLMAN, 1978, p.162). Entramos aqui no campo da
poesia, a imaginação verbal, a exploração de fazer imagens através das
palavras. O discurso poético é terapêutico por natureza, pois possibilita um
rico número de analogias, apontando sempre para mais implicações.
Os itens seguintes, são ferramentas e
operações que aplicaremos às imagens, elas não possuem uma ordem para serem
aplicadas, não dependem uma da outra, podem se intercalarem ou podem ser usadas
separadamente.
2.1. Reafirmação
Uma técnica fundamental para manter as
implicações da narrativa próximas da imagem, é através “da reafirmação do sonho
e suas frases, dando-lhes uma nova inflexão” (BERRY, 2007, p. 68).
Aqui entramos no reino das metáforas,
refletindo o texto para além do literal, o ver e ouvir através da imagem, suas
nuances e ecos.
Reafirmamos com as mesmas palavras, mas
enfatizando a qualidade metafórica dentro das próprias palavras.
Durante este trabalho de ler e re-ler a
imagem, ouvir e re-ouvir, descobrimos que “a psique emerge enquanto nós
submergimos ou nos perdemos no labirinto da imagem” (HILLMAN, 1977, p. 75).
Ex: EEEUUU estou deitada numa cama, OO
QQUUAARTTOOO está escuro. UUUMMM VVELLHHOO com o rosto deformado aparece NNAA
JAANNEELLAA. NNNEEESSTTEE momento, EEEUUU LLEEEVVAANNNTOO e acendo a LLUUZZ...
Aprendemos com este cantar, que “eu” estou
deitada e é o quarto que está escuro. Ou seja, o “eu” deitado é imaginado, ou
casado, com um quarto escuro. Reafirmando, aprendemos que o “eu” deita e o que
é escuro não é “eu”, mas o lugar onde estou, o quarto. Enquanto estou nesse
lugar escuro, um velho aprece fora do lugar escuro, o quarto. Aqui o “eu”
levantado aparece em cena, ele liga a luz. “Eu” levantada, ligo a luz, o velho
entra e me aponta, “eu” deitada, quarto escuro, o velho fora me assusta.
Podemos cantar e re-cantar a cantiga, quanto
mais cantamos numa direção, em outra direção, mais o sentido metafórico da
imagem aparece. Assim como em Esopo, um segundo texto é revelado com a imagem,
esse texto é um texto analógico, ele não explica a imagem, mas ele revela a
polissemia da imagem e das palavras e como elas ressoam nos contextos da vida
do sonhar por analogia.
“Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.”
(BARROS, 2010/1, p. 300)
“Para cantar é preciso perder o interesse de informar”.
(BARROS, 2010/1, p. 458)
2.2. Analogizar
Quanto mais se repete, mas implicações
vêem a superfície, quanto menos interesse em informar, mais podemos cantar o
sonho, entramos no sonho e ele entra em nós como uma canção, um gorjeio. Mas
ainda precisamos aumentar o volume, ainda há muito barulho na volta, as coisas
do dia, as “minhas coisas”. Será que elas podem entrar na canção? Ou já
entraram, só precisamos pautar-las? Assim, enquanto cantamos, podemos olhá-las
para direções?
“Analogia é uma palavra usada em
anatomia comparativa por referir a uma relação onde há semelhança em função, não
em origem” (HILLMAN, 1977, p. 86). Ou seja, analogizar é dizer que tais coisas
no sonho parecem tais coisas, funcionam como tais coisas, sentem como tais
coisas, não que são tais coisas.
Ex: Fazemos a pergunta ao sonhador: “Com o
que esse velho segurando uma lança enferrujada se parece?”. Aqui começam as
analogias, ou, coisas de fora do sonho, da vida do sonhador, que correspondem às
imagens do sonho. “Parece quando o meu pai vem cobrar de mim que ta na hora de
eu fazer algo da vida, de trabalhar; parece o meu carro velho, que de tão
péssimo estado funciona mais como uma arma, uma lança do que um veículo, me
acidentei semana passada; parece o meu medo de ficar velha, cada vez que olho
pela janela, as coisas mudam e eu fico mal com isso”.
Nenhuma dessas suposições diz o que o sonho
é, mas com o que ele se parece, não são partes minhas, minha velhice
enferrujada vindo em minha direção, mas podem corresponder com o meu medo de
envelhecer. Estamos analogizando e analogizar também quebra pernas, a
imaginação é viva e poderosa.
A idéia de tomar imagens oníricas como
objetivas, ou seja, referindo as imagens do sonho ao seu referente objetivo da
vida diurna é apenas mais uma maneira de analogizar. Tal procedimento não deve
ser levado literalmente.
Igualmente,
tomar imagens do sonho como objetos internos, é também uma maneira de
analogizar. Ambas idéias “são derivadas da imagem e não ao contrário”.
(HILLMAN, 1978, p. 173)
Tais idéias são conceitos não inerentes
na imagem, sabemos que o velho no sonho, não é o velho da quitanda, com quem se
parece, pois ele está na quitanda vendendo rapaduras, em outro bairro. Também
não é o velho interno, o senso de sabedoria primordial, o animus, ou qualquer
outra suposição. Tais idéias são um aprofundamento de analogias que podem
ajudar no trabalho de fazer imagens, se conseguirmos atermo-nos a imagem
original, aumentando seu volume e dimensão.
Apontar para algo é uma maneira de
enriquecer o fenômeno. Ao invés de responder a uma imagem afirmando o que ela
é, respondemos apontando para algo, “contando ou mostrando” (HILLMAN, 1977,
p.67) algo com que ela se pareça.
Vamos descobrindo por analogias, as
imagens dos meus problemas e como eles funcionam, como se interconectam.
Ex: Ao invés de
responder o que é uma lança, apontamos para o que ela se parece. “Sabe o filme
Coração Valente? Aquela cena de batalha, os guerreiros carregam varas enormes
no combate, aquilo é uma lança.” “É tipo a grade que temos no edifício, são
bastões de ferro compridos, com uma ponta de flecha, assim evitamos os ladrões
de entrar”. Não respondemos com conceitos, mas com imagens.
“O avô despencou do alto da
escada aos trambolhos.
Como um armário.
O armário quebrou três pernas.
O avô não teve nada.
Ué! Armário não é só um termo de
comparação?
Aqui em casa comparação também
quebra perna.
O avô dementava as palavras.”
(BARROS, 2010/1, p. 444)
Amplificação
A amplificação não será abordada neste
trabalho, por motivos de espaço. Um único lembrete para este tipo de trabalho é
que a amplificação, uma tentativa através de análogos culturais de tornar a
imagem mais volumosa e profunda, seja usada para enriquecer o processo de
analogizar, ao invés de substituirmos a imagem do sonho pela imagem cultural
usada para amplificá-la, entrando assim num trabalho simbólico. Amplificar é
evocar paralelos, padrões semelhantes, mas não deixar o particular da imagem se
perder em generalizações.
“É mesmo um trabalho na larga, onde o pantaneiro pode inventar,
transcender, desorbitar pela imaginação. Porque a maneira de reduzir o isolado
que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, é botando
enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim,
através das vadias palavras. Ir alargando os nossos limites”.
(BARROS, 2010/1, p. 208-209)
Elaboração e Associações
O mesmo vale para as associações do
sonhador. As associações podem nos falar mais sobre o sonhador, mas pouco sobre
o sonho. Enquanto utilizarmos as associações como formas de analogizar,
aumentando o volume da imagem apresentada, estamos ainda nos trilhos da
imaginação. Se ao contrário, começarmos a seguir associações atrás de
associações, entraremos no ramo das traduções, do trabalho detetivesco
personalista, esquecendo o sonho e entrando na vida consciente do sonhador.
“Aonde eu não estou as palavras
me acham.”
(BARROS, 2010/1, p. 347)
2.3. Contrastar
Contrastar ajuda o sonhador a tornar a
imagem mais específica. Algumas imagens estranhas, familiares, porém, curiosas,
por estarem em situações anormais, ganham singularidade e valor quando as
contrastamos com alguma outra imagem. Assim como o odor está sempre ligado a
uma imagem (cheiro de melancia, cheiro de peixe), quando contrastamos uma
imagem (velho) com outra que poderia estar lá (criança), necessitamos
caracterizar a imagem com mais adjetivos, detalhes, tramas, que a deixam falar
mais alto. É necessário manter a imagem em questão fixa, enquanto contrastamos
com outras. Não estamos buscando associações pessoais, nem sentido simbólico,
“pressionamos o sonhador em direção de imaginar diferenças, perguntando por
especificidades inerentes a sua imagem em questão” (HILLMAN, 1978, p. 178).
Desta maneira, as particularidades da imagem ficam mais evidentes e podem
emergir, o que não aconteceria sem o contrastar.
Ex: Terapeuta: “Porque um velho e não uma
criança? Porque um velho e não uma velha?
Sonhador: “Criança não me dá medo, tenho
crianças em casa, criança é coisa boa. Velho é coisa ruim, decadência, tenho
medo de envelhecer” “Tenho professoras velhas, elas são sábias, me confortam,
mas um velho lembra o meu pai que morreu de Parkinson, não me dou bem com
homens mais velhos”.
Aprendemos aqui que o velho que não só
carrega uma lança, mas o medo de envelhecer da sonhadora, a dificuldade de
lidar com homens mais velhos, eles na janela, fora, xô velhice. Crianças e
senhoras sábias, esses são legais. Aprendemos isso por contrastar a figura do
sonho com figuras externas, acrescentamos mais peso, mais volume, mas medo,
mais drama, que são inerentes a imagem, mas que só emergem com o contrastar.
2.4. Gramática ou Despalavra
As funções metonímicas, por concatenar
as palavras em correntes lineares de acordo com as leis da gramática e sintaxe,
em tempo que organizam o texto, prendem a narrativa a um sentido único. Segundo
Kugler, “através desse processo a polissemia inerente das palavras é reduzida a
uma singularidade de sentido. Por outro lado, a operação metafórica na
linguagem associa palavras de acordo com certo grau de fonética e/ou paridade
semântica (identidade ou analogia), não sintaticamente”. (KUGLER, 2002, p.113)
Através da reversibilidade da imagem, podemos
libertar o substantivo de sua rigidez. A idéia é dissolver a substância
nominativa (a imagem/palavra) em metáfora (a imagem/palavra está funcionando em
diversas direções e qualificações). Essa operação permite que a “metáfora ecoe
diretamente na própria palavra”. (HILLMAN, 1978, p. 165)
Ex: “ele traz uma lança enferrujada na mão”.
Podemos reverter a imagem, por exemplo: “ele traz a ferrugem em forma de
lança”, “a lança é trazida por ele, na mão, o enferrujar”, “um lançar da
ferrugem é trazido pela velha mão”, “a mão do envelhecer é trazida pela
ferrugem em forma de lança (pontiaguda, pronta para entrar em mim, me
aniquilar, me transpassar), “o envelhecer vai me lançar a ferrugem, está
entrando, por mais que eu acenda a luz, estou paralisada”, “paralisar é estar
prestes a ser lançada a velhice, antes fora, enquanto eu jazia na escuridão,
agora prestes a me transpassar, dentro, mesmo com luz acessa, não consigo
fugir, não tenho voz, ele entrou, ela entrou, ferrugem, lançada pela mão do
velho, deformação entrando e carregando o que eu temia fora, aqui no quarto,
agora, neste momento”.
Transformamos verbos em substantivos,
substantivos em verbos, em adjetivos, mudamos a pontuação, a ordem das
palavras, analogizamos, reafirmamos, poetizamos, libertamos a imagem da prisão
da narrativa, UFFAAA!
O mesmo pode ser feito com verbos,
ligando o verbo a um advérbio e depois revertendo a imagem. Essa operação
permite o emergir de padrões de comportamento e como eles aparecem.
EX: Gritar desesperadamente vira
desesperar-se gritadamente, ou de maneira gritada.
“A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela
expresse nossos mais fundos desejos.”
(BARROS, 2010/1, p. 347)
2.5. Nomes
“A essência da pessoa está no nome” (HILLMAN,
1979a, p. 62), assim sendo, uma forma de tornar as imagens e palavras do sonho
únicas, evitando a abordagem simbólica e seus dicionários, é através da
qualificação de termos gerais para substantivos particulares como eles aparecem
na imagem. Criamos assim, epítetos, como os índios e os gregos faziam para
nomear seus Deuses.
“A procura pelas raízes das palavras, a
fantasia etimológica, é um dos rituais básicos da tradição imaginativa, porque
busca resgatar a imagem dentro de uma palavra ou anexar novamente uma palavra
ao nome de uma coisa, uma ação, um lugar, ou uma pessoa. Uma das maneiras de
restabelecer a “abrangente visão do mito” as pessoas da noite passada que
entraram no sonho é olhar para os seus nomes.” (HILLMAN, 1979a, p. 62)
Ex: Eu-deitada, Velho-deformado, Lança-enferrujada,
Velho-da-lança-enferrujada, Eu-de-pé.
Aprendemos assim que quem jaz numa
Quarto-escuro é o Eu-deitado. Quem está na janela é o Velho-deformado e quem
entra no quarto é o Velho-da-lança-enferrujada.
Temos deuses agora, palavras como deuses, seres
míticos que merecem rituais de adoração.
“Em 1912,
Entrei para uma seita desativada cujos membros um pouco dementados
Se ocupavam de ouvir a ressonância deles mesmos nas palavras
(igual que os louquinhos quando
ouvem paredes)
Comecei a saber menos sobre meus desencontros.
Uma porção de lodo forçou para baixo a minha voz.
Aprendi que no escuro eu enxergo melhor.
Orvalho benzeu meu olho.”
(BARROS, 2010/1, p. 283)
2.6. Eternalizar ou Monumentar
Essa ferramenta não é factual,
eternalizamos uma imagem para mover valores. Ao invés de usarmos o mecanismo
quando/daí, trocamos o “quando” por “sempre que”.
Esse processo é metafórico, ajuda-nos a
vermos conexões que de outra maneira deixaríamos passar em branco. Um padrão, um gesto, uma
conexão “num sonho está sempre acontecendo na minha vida, um tipo de mecanismo
eterno” (HILLMAN, 1978, p. 176). Eternalizar de imediato torna a frase
“imensamente amplificada, direto de um tempo singular para a eternidade”
(HILLMAN, 1978, p. 176).
Podemos ainda eternalizar o sonho por
completo, como se esse sonho fosse o único sonho que o sonhador já teve,
elevando as conexões a proporções míticas, em busca de valor na imagem, não de
fatos.
Ex: SEMPRE que estou deitada numa cama, em
quarto escuro, um velho deformado aparece na janela. Um velho deformado aparece
fora, SEMPRE que dentro está escuro, SEMPRE que estou deitada. Através do
eternalizar, não constatamos um fato, lançamos uma metáfora a proporções
míticas, damos um peso enorme a um padrão de comportamento, que pode estar
sempre presente nas minhas ações. SEMPRE que vejo o velho fora, acendo a luz,
SEMPRE fico paralisada. Assim conseguimos ouvir algo que poderia passar despercebido.
“Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).”
(BARROS, 2010/1, p. 339)
2.7. Singularizar ou Infimizar
Introduzimos agora a palavra “somente”
ao mecanismo quando/daí. Singularizar torna específica a situação do sonho,
torna específico quando tal padrão de ação ocorre.
Ex: Em contraponto ao eternalizar, temos o
singularizar. Assim buscamos a especificidade da situação. SOMENTE quando estou
deitada numa cama, em um quarto escuro, é que um velho deformado aparece na
janela. Ele aparece SOMENTE quando estou no quarto escuro, ele entra SOMENTE
quando eu acendo a luz. Assim como no eternalizar, essa operação proporcional
um ver através da imagem, uma qualidade arquetípica que só emerge com a
operação.
“Aceitação da inércia para dar
movimento às palavras”
(BARROS, 2010/1, p. 399)
2.8. O Hiato na Imagem
O hiato na imagem refere-se a um ponto
de transição na imagem ou na narrativa, que indica uma mudança de sequência, ou
que une duas partes aparentemente desconexas do sonho.
“Olhe particularmente para advérbios e
conjunções: derrepente, então, até que, no entanto, somente, apesar disso,
depois, e o mais comum, mas” (HILLMAN, 1978, p. 182).
Essas palavras indicam um hiato na
imagem, uma conexão invisível. Se levarmos em conta a totalidade da imagem,
qualquer sonho é tanto um sonho do “eu” sonhador, como um sonho do “mas”,
“quando” e assim por diante. Um olho
atento para o hiato é um olho atento para o escuro e para o mistério da imagem.
Ex: “Neste momento” é um exemplo de hiato na
imagem. É nesta transição que teremos mudanças, o velho está fora, agora está
dentro, estava escuro, agora está claro. Há uma transição, um hiato, um ponto
cego onde algo invisível se esconde. O velho entra porque acendo a luz? Acendo
a luz por que o quarto está escuro? Tento gritar porque o velho tem uma lança
apontada para mim?
Não temos a resposta, essas coisas acontecem
ao mesmo tempo na leitura imagística. As conexões invisíveis, no entanto, nos
mostram que existe um ponto de convergência, mercurial, que mantém uma tensão
na imagem. O hiato nos faz pensar que esse é um sonho não só sobre um velho,
uma mulher num quarto, é um sonho sobre o “neste momento”, o momento atual,
este é um momento que liga dois momentos, ou mais, farejamos uma importância na
ponte, pois ela mantém os dois lados unidos, podemos ir e voltar sem medo de
cairmos ou de ficarmos apenas de um lado.
“Olhei uma paisagem velha a
desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.”
(BARROS, 2010/1, p. 380)
Palavras Finais ou Epitáfio
Sobre o trabalho com os sonhos:
“O que nós tiramos dos sonhos, o
que usamos do sonho, o que dos sonhos, trazemos pra cima, esta tudo na
superfície. A profundidade está na conexão invisível; e é trabalhar com nossas
mãos nas conexões invisíveis onde não podemos ver, fundo no corpo da noite,
penetrando, reunindo e diferenciando, debridando, mesclando, agitando,
misturando – isso constitui o trabalho com os sonhos. Sempre estamos fazendo
trabalho preciso, mas com invisibilidades, com ambigüidades, e com materiais em
movimento.” (HILLMAN, 1979a, p. 140)
Sobre a terapia:
“A atividade da terapia recebe o
seu sentido e valor da própria atividade. Vamos a terapia por causa da terapia
e não por desenvolvimento, ajustamento, cura, ou individuação – processos pelos
quais a terapia tem geralmente sido referida por sua significância assim como a
imagem tem sido referida a objetos externos. Se a psique é imagem, então o trabalho
psicológico ou fazer-alma é trabalho com imagens, fazer-imagem, poesis, e a
meta da terapia não pode ser distinguida da maneira que é praticada”. (HILLMAN,
1978, p. 176)
James Hillman 1926 - 2011
“Nosso conhecimento não era de
estudar em livros.
Era de pegar de apalpar de ouvir
e de outros sentidos.
Seria uma saber primordial?
Nossas palavras se ajuntavam uma
na outra por amor e não por sintaxe.
A gente queria o arpejo. O canto.
O gorjeio das palavras...
A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as
falas da imaginação.
Agente gostava dos sentidos desarticulados como a conversa dos
passarinhos no chão a comer pedaços de mosca.
Certas visões não significavam
nada mas eram passeios verbais.
A gente sempre queria dar brazão
às borboletas.
A gente gostava bem das vadiações
com as palavras do que das prisões gramaticais.
Quando o menino disse que queria passar para as palavras suas
peraltagens até os caracóis apoiaram.
A gente se enconstava na tarde
como se a tarde fosse um poste.
A gente gostava das palavras
quando elas perturbavam os sentidos normais da fala.
Esses meninos faziam parte do
arrebol como os passarinhos”
(BARROS, 2010/1, p. 451)
Referências
bibliográficas
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